Era um sábado suportável no calor insuportável. Todo mundo andava pela rua se abandando, meio cabisbaixo, e não era nem dezembro ainda. Algumas menininhas estavam de biquíni nos seus jardins amorenando a pele, utilizando aqueles óleos de cheiro enjoativo de canela e banana. Os garotos sem camisa, de skate passavam propositalmente mais lentamente na frente dos jardins das mesmas garotinhas que desamarravam a parte de trás do biquíni para que o sol banhasse as costas. Os meninos assobiavam provocantes, e as meninas, todas elas, se derretiam. Pra uns dias depois, borrarem as maquiagem de tanto chorar por eles. São só meninos, afinal, todos eles. Algumas crianças pequenas se molhavam com mangueiras verdes reluzentes na calçada, rindo, com os olhos semicerrados pelo sol ofuscante, ou estavam em casa, doente pela mudança repentina do tempo, ardendo nos 40 graus de febre. As mães batendo papo no portão, com frases casuais, com segredos que todo mundo já sabe, com risadas já ridas, mas tudo muito bom dentro do padrão que tinham se acolhido. Os pais, tomando cerveja, sentados nas mesas falando de coisas que não arriscavam falar perto de suas lindas esposas. O futebol era cuspido e discutido na mesa, entre os gritos e risos semiembriagados. O casamento frustrante e em decadência não passava na cabeça de ninguém. Algumas pessoas passavam o dia inteiro nos computadores. Outros trancafiado em porões úmidos se cagando de rir por dividir um baseado com seu melhor amigo. Ouvindo música baixa, mas que com o tempo o ouvido se acostuma e parece realmente alta no silencio. Mas era um dia quente, e o silêncio não existia. Todos suados, com as roupas mais frescas, e o inferno na terra, e o céu laranja. Mas mesmo assim estava todo mundo bem. Todo mundo sustentando um pouquinho de felicidade. E olha, que não era nem Dezembro ainda.