DEIXE-ME ENTRAR >quando eu nasci eu não fui batizado >desde 2013 tento encontrar um motivo >esse parece o único lógico >por isso eu atraio tantas coisas estranhas >desde pequeno as mesmas coisas >barulhos pela casa >vultos em cantos >sombras de objetos que não existem >cachorros latem pro vazio ao meu lado >isso se tornou tão frequente na minha vida que eu já ignorava >dos 7 até os 17 ignorando >acreditava que tudo isso era da minha imaginação >acreditava >Século 2013 >21:00 horas >meus pais tinham acabado de sair de casa >foram jantar com uns amigos >sempre voltavam tarde >01:00 da manhã ou mais tarde ainda >ficar sozinho em casa é sempre bom >principalmente em noites de chuva >qualquer adolescente de 17 anos sabe disso >coloquei meu jantar no prato >me sentei na sala >minha cachorra do lado esperando qualquer pedaço de comida cair >liguei a tv >hbo >"Jogos Mortais 3" >vai ser esse mesmo >comecei a comer e a ver o filme >13 minutos de filme >escuto um barulho >como se fosse alguem batendo na porta >olho pra minha cachorra >ela nem se moveu >ainda me olhava sem desviar os olhos, esperando comida >olhar pra minha cachorra quando ouvia algum barulho era quase um ritual >se ela não ouviu o barulho era algo vindo da minha cabeça >minha "imaginação" >voltei a ver o filme >14 minutos de filme >mais uma vez o barulho >mais alto >definitivamente tinha alguem na porta >morava em apartamento >vizinho querendo reclamar da altura do filme? >correspondência? >conta de condôminio? >coloco a comida na mesa de centro >vou até a porta >abro >não tinha ninguém lá >era o hall do andar, o elevador e meu tapete de entrada >"slide to unlock" (deslize para destravar) >humor dos meus pais sempre foi péssimo >fechei a porta >voltei pro sofa >minha cachorra tinha subido no sofa >comia a minha comida >eu abri a boca pra mandar ela sair quando bateram na porta de novo >percebi orelha da cachorra se mexer >não tirou a cara do prato >mas levantou a orelha >ouvir ela ouviu >alguem tava de sacanagem comigo >abri a porta >dessa vez tinha alguém lá >em cima do meu tapete de entrada tinha uma criança >tinha uns 6/7 anos >batia na minha cintura >sempre estive acostumado com sombras e vultos >mas isso era bem mais que uma sombra >cabelo >um vestido rosa com branco >sapatos brancos >sombras e vultos não tinham cor >eu gelei e travei por uns 3 segundos >ela olhava pro chão >os pés virados pra dentro >braços colados no corpo >molhada >essa menina devia estar atrás de outro apartamento >subiu sozinha e se perdeu pelos andares >era a única explicação lógica já que não era minha mente >abri a boca pra falar mas ela falou primeiro >"Posso entrar?" >uma parte de mim quase disse que sim >mas era uma criança >que ia entrar no meu apartamento >imagina se alguém vem atrás dela >encontra uma criança na minha casa >"Aqui é o terceiro andar menina, você tá no andar certo?" >"eu quero entrar, deixa eu entrar?" >a situação já era estranha >quando ela ignorou meu comentário ficou mais estranha ainda >sabe quando você sente que alguma coisa ta errada? >quando você não sabe explicar mas algo ta errado? >era eu naquele momento >aquela menina olhando pro chão >com seus pés virados pra dentro >ela era a definição de: algo errado >"Você tem algum número que eu possa ligar?" >"Eu queria entrar" >"Você não pode entrar" >ela levantou a cabeça >seus olhos eram pretos >totalmente pretos >como se isso não bastasse ela ainda disse >"prometo me comportar dessa vez" >eu senti uma vontade de vomitar absurda >frio no corpo todo >pernas tremendo >eu fechei a porta com força e tranquei >uma volta na chave pra sair logo dali >isso era um novo grau de imaginação >ela bateu de novo na porta >alto >cada vez mais alto >olhei pra minha cachorra e percebi ela correndo >indo pro quarto >se enfiando embaixo da cama >ela tava ouvindo >eu não estava imaginando >peguei meu celular >as batidas eram tao fortes que pareciam que a porta ia quebrar >liguei pro meu pai >nunca demorou tanto pra alguem atender o celular >a porta ia cair e ele ainda não ia ter atendido essa merda >foram os 10 segundos mais longos da minha vida >quando ouvi o "fala filho" do outro lado da linha quase chorei >mas eu chorei de verdade com o que ele disse em seguida >"Que barulho é esse?" >definitivamente não era minha imaginação >de um lado a porta estalando com as pancadas >do outro meu pai gritando perguntando o que tava acontecendo >entre o choro gritei "Você nunca vai entrar aqui" >e como tudo começou tudo acabou >pararam de bater na porta >eu ouvi como se fosse alguem resmungando do outro lado >uma mistura de "tá" e "eu não entro" >passei o resto da noite esperando no canto da sala meus pais voltarem >todas as luzes da casa ligadas >meus pais chegaram em casa alguns minutos depois >quando entraram eu olhei pro lado de fora >procurando alguma coisa fora do normal >não encontrei nada >depois do choque pesquisei na internet sobre o que aconteceu >ao que tudo indica crianças como essa menina são vistas desde 1990 >já foram capturadas em videos >fotos >tem até uma pagina na wikipeia falando delas >eu nunca soube explicar o que aconteceu >não sei se é minha imaginação >não sei se vultos e sombras são reais >só sei que minha mãe me perguntou por que aquela noite o tapete da porta estava virado de cabeça pra baixo >e sei que agradeço por não ter deixado ela entrar